O Brasil está prestes a desbancar os EUA no agro, quem ganha com isso?
A virada histórica no comércio agrícola mundial é real, mas os números pedem leitura atenta antes da euforia
16/10/26 às 20:24 | Atualizado 16/10/26 às 20:27Compartilhar

Há pouco mais de meio século, o Brasil importava parte da comida que colocava na mesa. Hoje, está a poucos bilhões de dólares de se tornar o maior exportador agrícola do planeta, posto ocupado pelos Estados Unidos há décadas. Na terça-feira (13), em evento do Ministério da Agricultura e Pecuária, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o país deve terminar 2026 como o maior exportador de alimentos do mundo.
A frase tem respaldo nos números. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), as exportações do agronegócio brasileiro somaram o recorde de US$ 169,2 bilhões em 2025, o equivalente a 48,5% de tudo o que o país vendeu ao exterior. No mesmo ano, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), as exportações agrícolas americanas ficaram em US$ 171,3 bilhões, queda de 2,8%. A distância entre os dois, de pouco mais de US$ 2 bilhões, é a menor da história recente. Em 2021, pelas mesmas bases, passava de US$ 50 bilhões.
E 2026 acelerou o movimento. Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), de outubro de 2026, com base em dados do MDIC e do MAPA, mostra que o agro brasileiro exportou US$ 133,6 bilhões entre janeiro e setembro, alta de 5,5% sobre o mesmo período de 2025. O primeiro semestre já havia sido o melhor da série histórica, com cerca de US$ 87 bilhões, conforme o Radar Agro do Itaú BBA, de julho de 2026.
É uma notícia que merece ser celebrada. Mas, como toda boa notícia econômica, também merece ser examinada.
Por que a virada acontece agora?
A primeira força por trás do movimento é a produção. O 12º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, da Conab, divulgado em setembro de 2026, estima uma colheita recorde de 361,7 milhões de toneladas, alta de 2,6% sobre a safra anterior, com 180,4 milhões de toneladas só de soja.
A segunda é produtividade. O relatório Perspectivas Agrícolas 2026-2035, da OCDE e da FAO, publicado em junho de 2026, aponta que o crescimento brasileiro virá mais de ganhos de eficiência e do uso mais intenso da terra, como a segunda safra no mesmo ano, do que da abertura de novas áreas. O mesmo estudo projeta que o Brasil responderá por 61% das exportações mundiais de soja na próxima década e assumirá a liderança global nas vendas de algodão em pluma, à frente dos americanos.
A terceira é geopolítica. A disputa comercial entre Washington e Pequim abriu espaço para o Brasil. No relatório Outlook for U.S. Agricultural Trade de agosto de 2026, o próprio USDA projeta que as exportações agrícolas americanas para a China cairão para US$ 12 bilhões no ano fiscal de 2026, recuo de 26% em relação ao ano anterior. Do lado de cá, a China absorveu 35% da receita do agro brasileiro no primeiro semestre, cerca de US$ 31 bilhões, alta de 10,5%, segundo o Radar Agro do Itaú BBA.
Um cuidado com a régua
Antes de cravar a ultrapassagem, vale lembrar que não existe um placar oficial único. O conceito de agronegócio usado pelo MAPA inclui produtos florestais, como celulose e madeira, que ficam fora da conta agrícola do USDA. Além disso, o governo americano trabalha com ano fiscal, que vai de outubro a setembro. Por esse critério, o USDA projeta exportações de US$ 179,5 bilhões em 2026, alta de 1,8%.
Se o Brasil mantiver até dezembro o ritmo de crescimento observado até setembro, encerrará o ano perto de US$ 178 bilhões. Na prática, é um empate técnico, em que o resultado depende da metodologia escolhida. A virada estrutural é inegável; a data exata da ultrapassagem, nem tanto.
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Os pontos que exigem atenção
Liderar o ranking não elimina fragilidades. A pauta segue concentrada: soja e carnes respondem por cerca de metade da receita do setor, e um único comprador, a China, por mais de um terço dela. Concentração amplia ganhos nos bons momentos e amplia perdas quando o cliente muda de ideia.
O tarifaço americano também deixou marcas. Segundo o Monitor do Comércio Brasil-EUA, da Amcham Brasil, com base em dados do Comexstat, as exportações agropecuárias brasileiras para os Estados Unidos caíram 17,8% entre janeiro e setembro de 2026, enquanto as vendas para outros destinos cresceram 8,9%.
Há ainda o descompasso entre o país e o produtor. Enquanto as exportações batem recordes, o Indicador Serasa Experian Agro de Recuperações Judiciais registrou 474 pedidos no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% sobre o mesmo período de 2025. Entre produtores rurais organizados como empresa, o salto foi de 73,5%, com o cultivo de soja liderando os casos. A superpotência convive com endividamento e margens apertadas dentro da porteira.
O que isso significa para quem investe?
O primeiro cuidado é comportamental. Narrativas fortes, como a de um país que vira o celeiro do mundo, costumam provocar a sensação de que qualquer ativo ligado ao tema vai se valorizar. Mas o fato de o setor crescer no agregado não significa que todas as empresas, fundos e títulos ganhem na mesma proporção.
Os caminhos para se expor ao agro ficaram mais amplos. Pelo Boletim de Finanças do Agro, do MAPA, de setembro de 2026, os Fiagros já somam R$ 73 bilhões de patrimônio líquido em 301 fundos, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) chegam a R$ 175 bilhões em estoque e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), a R$ 563 bilhões.
Cada instrumento tem um risco diferente. A LCA, emitida por bancos, conta com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dentro dos limites do fundo. O CRA não tem essa proteção, e o investidor assume o risco de crédito da empresa ou do produtor por trás do papel. Nos Fiagros, vale olhar a concentração de devedores, a qualidade das garantias e o histórico de inadimplência da carteira, além da liquidez das cotas.
Para quem prefere ações, três perguntas ajudam a separar oportunidade de euforia: quanto da receita da empresa depende de um único país, quanto do portfólio é processado ou industrializado e como ela lida com o câmbio. Exportadoras têm receita em dólar, o que funciona como proteção natural, mas sofrem quando o real se valoriza. Empresas que agregam valor ao produto tendem a depender menos do preço de uma única commodity.
Em qualquer caso, o tema cabe melhor dentro de uma carteira diversificada e de longo prazo, sem concentrar o patrimônio em uma única aposta. Não é recomendação de compra, e sim um critério para olhar o setor com mais clareza.
O Brasil está, de fato, mudando de patamar no mapa da comida mundial, fruto de décadas de pesquisa e investimento no campo. Para o país, o desafio é transformar volume em valor e depender menos de poucos produtos e poucos clientes. Para o investidor, é lembrar que o tamanho de uma tendência não substitui a análise de cada ativo.
Ser o maior exportador do mundo é uma manchete. Saber quem lucra com isso é o que faz diferença no seu bolso.
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