Diretor da PF vê ‘equívoco’ em classificar facções como terroristas e pede prisão de foragidos nos EUA
Andrei Rodrigues afirma que facções criminosas buscam lucro, enquanto organizações terroristas têm motivações ideológicas ou religiosas. Para o diretor da PF, cooperação entre os países pode focar no bloqueio do envio de armas ao Brasil.
Por Vladimir Netto, TV Globo e g1 — Brasília
05/06/2026 13h50 Atualizado há 10 horas
- O diretor da PF, Andrei Rodrigues, classificou como ‘equívoco’ a decisão dos EUA de rotular as facções brasileiras CV e PCC como organizações terroristas.
- Rodrigues explicou que o terrorismo possui motivações ideológicas ou religiosas, enquanto o crime organizado visa exclusivamente obter lucro financeiro.
- Apesar das críticas, o chefe da PF defendeu a cooperação com Washington para prender criminosos foragidos em solo americano e bloquear o tráfico de armas.
- Especialistas alertam que a nova classificação dos EUA pode elevar custos de compliance para empresas brasileiras e desestimular investimentos no país.

Medida dos EUA que classifica PCC e CV como organizações terroristas passa a valer hoje (05)
O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, chamou de “equívoco” a decisão dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
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Em entrevista à TV Globo nesta sexta-feira (5), Andrei também defendeu a cooperação das autoridades brasileiras com os EUA para a prisão de foragidos que estão no território norte-americano e para o bloqueio do envio de armas para o Brasil (leia mais aqui).
A entrada das organizações criminosas na lista norte-americana foi anunciada em 28 de maio pela Secretaria de Estado dos EUA, e passou a valer nesta sexta-feira (5).
“As organizações terroristas têm motivos ideológicos, motivos religiosos, objetivos diferentes daquele do crime organizado que, em que pese aterrorizar as pessoas, busca o lucro”, pontuou o diretor da PF.
“E essa definição [como terroristas] é um equívoco, porque a estratégia de enfrentamento é diferente para um grupo e para outro grupo. Então, nós não podemos confundir essas iniciativas, né? Para o cidadão pouco importa a definição, qual a semântica, o que vai ser chamado esse grupo que está impingindo o medo”, prosseguiu.
Rodrigues explicou que a decisão norte-americana não vai alterar a estratégia brasileira de combate ao crime organizado nem a atuação da PF no combate às facções criminosas.
Isso porque, na avaliação de Rodrigues, o narcotráfico e o terrorismo têm características diferentes, portanto, exigem estratégias distintas.
“Há questões técnicas que precisam ser colocadas mas, ao mesmo tempo, tornar muito claro que para nós essa definição que os Estados Unidos atribui às organizações criminosas em nada altera o vigor e a firmeza que nós vamos seguir atuando contra o crime organizado. É motivação distinta, é objetivo distinto”, destacou.
Nos bastidores, integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty defendem a manutenção do diálogo com as autoridades norte-americanas, mas admitem que a decisão dificilmente será revertida no curto prazo.
Diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, é ouvido na CPI do Crime Organizado — Foto: Andressa Anholete/Agência Senado
A Polícia Federal não foi comunicada oficialmente sobre a medida e tomou conhecimento da decisão pela imprensa. Segundo o diretor da PF, ainda é cedo para avaliar se a classificação terá impacto na cooperação entre Brasil e Estados Unidos.
“Não tivemos nenhuma alteração, nenhuma interlocução que tenha sinalizado mudança imediata nessa cooperação. Precisamos aguardar para saber qual será a política dos Estados Unidos e se é o caso de haver alterações”, disse.
O diretor da PF ressaltou, ainda, que a decisão de Washington não tem “nenhuma influência” nas políticas de combate ao crime no Brasil.
“Na prática, essa decisão de um outro país soberano não tem nenhuma influência, não tem o condão de mudar as políticas públicas brasileiras. A nossa maneira de enfrentar o crime organizado é baseada na integração, na descapitalização dessas organizações criminosas e na prisão de lideranças”, afirmou.
Espaço para cooperação
Apesar das críticas à classificação adotada pelos Estados Unidos, Andrei avaliou que a medida pode servir como oportunidade para ampliar a cooperação internacional.
“Eu penso que isso se torna uma oportunidade de ampliarmos a cooperação, de termos mais troca de informações, bloqueio do envio de armas para o Brasil, prisão de foragidos da Justiça brasileira nos Estados Unidos. Aqueles países que quiserem verdadeiramente enfrentar o crime organizado e cooperar terão na Polícia Federal e no nosso país um grande parceiro”, declarou.
Em abril deste ano, o Brasil e os EUA tiveram um mal-estar diplomático por causa da prisão do ex-deputado federal (PL-RJ) e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem.
Condenado a 16 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2025 por tentativa de gople de Estado, ele está em Miami desde setembro do ano passado e é considerado foragido. Ramagem foi preso pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) em 13 de abril. Segundo a Polícia Federal, a detenção ocorreu por questões migratórias. Ocorre que, de acordo com investigações, ele havia comprado um automóvel utilizando um passaporte que já havia sido cancelado por determinação da Justiça brasileira. No mesmo dia, Ramagem foi levado a um centro de detenção no Condado de Orange, na Flórida, onde ficou em uma cela separada.
Na época, o blog de Ana Flor mostrou que um delegado da Polícia Federal brasileira, Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação junto ao ICE em Miami, teve papel fundamental no processo. De acordo com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, esse delegado emitiu os alertas necessários que auxiliaram as agências norte-americanas na captura. A estratégia fez parte de um acordo de cooperação mútua entre as forças de segurança dos dois países para o combate ao crime organizado e a localização de foragidos.
Entretanto, o ex-deputado foi solto em 15 de abril, sem procedimento judicial ou pagamento de fiança. O Brasil não havia sido formalmente informado da libertação, e teve uma reunião com representantes dos Estados Unidos para entender a soltura. A expectativa do governo federal era que Ramagem permanecesse preso durante negociações sobre uma eventual vinda para o Brasil, já que ele está foragido no país. Membros do ICE informaram à PF que Ramagem poderia aguardar em liberdade, nos EUA, a análise de um pedido de asilo.
Alguns dias depois, em 20 de abril, os EUA publicaram que ordenaram a saída do delegado Marcelo Ivo de Carvalho do país. A medida foi divulgada pelo Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo americano. No comunicado, o país disse que a autoridade brasileira tentou “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas” no país.
Andrei Rodrigues, por sua vez, disse em entrevista ao Estúdio i da GloboNews que o delegado voltou por ordens brasileiras. “Não há nenhuma expulsão de funcionário brasileiro. Ele voltou por determinação minha, em razão desse episódio para que nós consigamos esclarecer se há um processo formal no Departamento de Estado, no próprio ICE…seja onde for”, disse em 22 de abril.
Carvalho havia sido nomeado para atuar em Miami em março de 2023, em uma missão junto ao ICE com duração de dois anos. Uma das suas funções era a identificação e a prisão de foragidos da Justiça brasileira nos EUA. Em março de 2025, o governo publicou uma portaria que prorrogou a permanência dele na missão até agosto de 2026.
Em seguida, a Polícia Federal adotou reciprocidade e retirou as credenciais de um agente de imigração dos Estados Unidos que trabalhava em Brasília. Foi uma resposta à decisão americana contra o delegado que atuou na prisão de Ramagem. “Eu retirei, com pesar, as credenciais de um servidor dos EUA pelo princípio da reciprocidade”, disse Rodrigues durante entrevista ao Estúdio i.
Circulação de armas
Ao citar o bloqueio do envio de armas para o Brasil, Andrei refere-se à entrada ilícita de peças e armamentos no país. O Atlas da Violência 2026, divulgado no final de maio, cita um artigo acadêmico de Langeani e Pollachi (2025), que analisou a circulação ilícita de armas de fogo no Brasil entre 2019 e 2023.
Segundo o artigo, houve queda na apreensão de revólveres, que passaram de 38% para 35%, e aumento no confisco de pistolas semiautomáticas, de 17% para 28%. Ao mesmo tempo, foi registrada maior incidência de armas de estilo militar: de 1,7% para 2,4% no país e de 3% para 4,3% no Sudeste.
Para os pesquisadores, a mudança sugere maior acesso de organizações criminosas a diferentes tipos de armamento, provenientes de origens distintas. Rifles, por exemplo, costumam estar ligados ao tráfico internacional, com armas e peças vindas dos Estados Unidos, além da produção doméstica irregular de dispositivos sem número de série.
Efeitos econômicos
Especialistas apontam possíveis efeitos econômicos da medida. Para Eduardo Mello, professor de Política e Relações Internacionais da FGV, a classificação pode aumentar exigências de compliance para empresas que mantêm negócios ou relações financeiras com os Estados Unidos.
Segundo ele, investidores e companhias poderão enfrentar custos maiores para comprovar que não possuem qualquer vínculo com organizações enquadradas como terroristas, o que pode desestimular investimentos no Brasil.
Em nota divulgada na semana passada, o governo brasileiro afirmou que o combate ao crime organizado é uma prioridade, mas destacou que a cooperação internacional deve respeitar a soberania nacional.
Integrantes do Ministério da Justiça também avaliam que a cooperação jurídica internacional é uma ferramenta essencial para a repressão ao crime organizado e que o Brasil mantém acordos com diversos países nessa área.
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